Conheça melhor a Feira Viva e o que pensa uma das idealizadoras do projeto

Conheça melhor a Feira Viva e o que pensa uma das idealizadoras do projeto

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Você está repensando a forma como se alimenta? Procura valorizar orgânicos, pequenos produtores e alimentos frescos em vez de industrializados? Você não está sozinho. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha, no final do ano passado, apurou que mais da metade dos estabelecimentos comerciais que vendem alimentos acredita que os clientes estão cada vez mais interessados no consumo de uma alimentação saudável. Do total entrevistado, 53% notaram aumento na procura por frutas; 61% observaram que os clientes estão comendo mais verduras e legumes e 65% apontaram que cresceu o consumo de sucos naturais.

Mas será que quem está nessa busca, está no caminho certo? 

Acompanhe abaixo a entrevista exclusiva que o Blog da Timberland realizou com Keila Malvezzi, uma das idealizadoras da Feira Viva, um evento que conscientiza sobre alimentação saudável e aproxima o público do produtor rural. Se você curte o tema, certamente deve ter ouvido falar. A primeira edição da Feira Viva contou com o apoio grandes estrelas da gastronomia, como Alex Atala e a premiada chef Helena Rizzo, e ganhou muito espaço na mídia, no coração e, principalmente, nos pratos de quem busca uma nova forma de consumir alimentos. Se você ainda não conhece, acompanhe as respostas abaixo. Uma grande aula de história da alimentação, das peças que a indústria nos prega e o que realmente significa alimentação saudável e sustentável.

Blog da Timberland: Estamos vivendo tempos de transformação na alimentação. Parou-se de dar valor a alimentos industrializados e muita gente está buscando orgânicos, naturais, veganos e pequenos produtores. Como você vê esse movimento? Realmente tem aumentado ou apenas tem ganhado espaço na mídia?

Keila Malvezzi: É algo intrínseco. Há uma grande mobilização social em busca de alimentos mais saudáveis. Um processo natural de reação aos caminhos tomados pela pasteurização da alimentação no mundo e pelo interesse comercial de empresas multinacionais poderosas. Por um lado, é boa e essencial a preocupação, por outro, é apenas mais uma oportunidade para empresas (muitas vezes as mesmas multinacionais) utilizarem essa demanda da sociedade. Assim, eles criam mais uma roupagem, uma embalagem e lançam um produto poluente, degradante e excludente como os seus pacotinhos plásticos recheados de farinha, gordura vegetal e açúcar.

B.T: Foi por isso que decidiu criar a Feira Viva?

K.M: Não, a Feira Viva nasce no campo pra trazer até o consumidor os desafios da produção agrícola sustentável. Criamos a Feira para discutir as questões realmente relevantes na hora da compra de produtos com bases agroecológicas, de produtos adaptados ao clima tropical ou com uso de técnicas de manejo agrícola regeneradoras do solo, com forte apelo regional e valor agregado, que viabilizem a permanência do agricultor no campo. Eu sou agrônoma e meu sócio, Patrick Assumpção, é produtor rural. Em nosso trabalho (trabalhamos com implantação de sistemas agroflorestais, principalmente em áreas de Reserva Legal e APP), percebemos a grande dificuldade do produtor em ter acesso ao mercado, dificuldades logísticas e de ter um produto que converse com o mercado, entre outros inúmeros desafios para a comercialização. Hoje, o agricultor ou dono de terra é um grande responsável pela preservação do meio ambiente.

Já são raros os produtores que conseguem produzir com menor impacto. Se esses grandes ícones sobreviventes da agricultura não forem estimulados e valorizados por seu trabalho e não conseguirem viabilidade econômica, deixarão para traz suas terras para compor os assustadores números da população urbana miserável. Assim, perdemos um ser humano que trazia consigo um conhecimento, uma cultura que está claramente morrendo e, em seu lugar, haverá mais uma empresa de produção em larga escala, plantando monoculturas orgânicas.

B.T: Por que ainda há tão pouco acesso a PANCs? (Se houvesse muito, não seriam não convencionais).

K.M: Acho que não é muito difícil de perceber que o termo “Plantas Alimentícias Não Convencionais” não representa o verdadeiro valor dessas plantas. Por outro lado, este termo é impactante e pegou na boca da população, dando extrema visibilidade a muitas plantas usadas a milhares de anos (sim, milhares de anos) pela população.

Então, senta que lá vem a história…

O Brasil (e muitos outros países tropicais) passou por intenso processo de colonização, que impactou diretamente nos sistemas produtivos e na alimentação. O português não compreendeu e não enxergou a agricultura que se praticava em solo tropical, então tratou de trazer as técnicas agrícolas dos países de clima temperado para serem aplicadas aqui. Temos 500 anos de degradação ambiental, principalmente por causa de técnicas agrícolas que funcionam no hemisfério norte e, aqui, são um desastre.

Nos primeiros séculos de colonização, eram usados na alimentação os insumos disponíveis aqui na terra, acrescido dos animais domésticos que foram trazidos (porcos e galinhas). Então, é comum, nos primeiros registros culinários do país, a utilização de plantas como beldroegas, taiobas, ora-pro-nóbis e uma infinidade de plantas nativas com alto valor nutricional e que cresciam em abundância, com algum cuidado para uma coleta sustentável. Os colonizadores levaram muitos dos vegetais encontrados por aqui para serem “melhorados” e adaptados ao cultivo em clima temperado, e conseguiram. Hoje, temos a batata, o tomate, as abóboras e uma infinidade de plantas que, depois de melhoradas e adaptadas ao clima temperado, foram reintroduzidas aqui. O problema é que, agora, elas têm mais dificuldade de sobrevivência e, assim, necessitam de cuidados especiais, mais insumos, e são mais suscetíveis a pragas e doenças. Dessa forma, as tais plantas, que eram as convencionais por aqui, passaram a ser esquecidas, relegadas a mato e não se falou mais delas.

Alguns poucos pesquisadores fazem um trabalho de melhoramento e pesquisa para cultivo intensivo de algumas dessas importantes plantas para a segurança alimentar. A dificuldade de colocá-las no mercado passa pela carência em pesquisa para produção em maior escala. O risco para o agricultor em investir no plantio dessas plantas e não conseguir comercialização (um dos escopos da Feira Viva é trazer à tona a importância, não só de se coletar “PANCs” na rua (o que no ambiente urbano deve ser feito com parcimônia devido ao risco de contaminação por fezes de animais domésticos e cúmulo de metais pesados), mas também de COMPRAR “PANCs”. Ao comprar uma planta de fácil cultivo, rústica, regeneradora de solo, você está investindo para que o agricultor plante aquele tipo de planta. Não é um caminho simples (apesar de ser apenas um caminho de volta às origens), mas estamos trilhando.

Trabalhamos com implantação de sistemas agroflorestais, mas sempre com preocupação de inserir nos sistemas plantas com alto valor nutricional e rusticidade no campo. Muitas dessas plantas são consideradas PANCs, mas a pesquisa se dá muito mais no âmbito de voltarmos a utilizar plantas tradicionais, nativas ou inseridas, mas que foram escolhidas pela população de um determinado local, por meio de seu uso por gerações e gerações, como alimento, e o valor dessa escolha é de uma riqueza cultural e ambiental que vale prestar atenção ao aspecto cultural e social ao discutir-se PANCs.

B.T: Quais PANCs já estão mais introduzidas nos cardápios?

K.M: As mais tradicionais são as mais comuns e, na verdade, nunca deixaram de ser consumidas. Aprendi a comer beldroega com minha bisavó, já a minha avó, fazia sempre um angu de fubá e adicionava taioba, me pedindo pra rasgar as folhas com a mão e nunca com faca. Ela não sabia muito bem, mas isso evita os veios grossos, onde está acumulado o oxalato de cálcio, substancia tóxica presente em muitas plantas (inclusive couve e espinafre). A ora-pro-nóbis nunca deixou de ser fartamente consumida em Minas Gerais e, por lá, teve papel decisivo na alimentação de negros fugidos e refugiados nas matas. Os nossos ricos temperos, como o urucum, a erva baleeira e a cúrcuma, também foram sendo substituídos por sucedâneos artificiais, mas ainda seguem sendo utilizados. Perde-se muito dinheiro e nutrientes cultivando e comendo plantas de difícil adaptação só porque foram vistas nas redes sociais como o novo suprassumo da Europa e do EUA, como por exemplo, o trigo, as cenouras coloridas, a kalle, entre outros.

B.T: Muita gente já tem hortinha de ervas e temperos em casa. Como migrar para leguminosas e PANCs?

K.M: Existem limitações em relação a espaço físico. A agricultura para produção de alimento é uma atividade extremamente técnica e deve sempre ser valorizada por isso. Mas um caminho interessante é cultivar essas plantas mais adaptadas. Quanto mais nutrido tiver o solo, com as condições climáticas adequadas (água e luz), mais a planta é capaz de responder com crescimento ou produção.

Existem plantas-chave que tanto servem para alimentação, quanto prestam serviços ambientais, como o feijão guandu, uma leguminosa arbustiva muito consumida por populações tradicionais e que é um excelente adubo verde. Existem tubérculos nativos muito rústicos, como o cara, o taro e o cara-moela. Hoje, a população está começando a entender que um projeto urbano de paisagismo pode e deve trazer componentes alimentícios e nativos.

Ao cultivar plantas, entendo que há uma aproximação maior entre o indivíduo e a planta. Se ainda houver um pouco de empenho por parte do cultivador, existe a grande possibilidade de deixarmos de ser um pouco menos analfabetos botânicos. A botânica está em nossas vidas mais do que somos capazes de compreender, acho que todo conhecimento é caminho pra uma atitude mais coerente em relação ao entorno.

B.T: Quais os benefícios de revolucionar a maneira como nos alimentamos?

K.M: A alimentação é a chave para uma revolução mundial em todos os âmbitos, sendo ela a base da vida na terra e totalmente dependente da natureza. Se não mudarmos a consciência em relação ao consumo alimentar, não sobrará ninguém. A alimentação humana pode acabar com o mundo, mas também é a única maneira de reconstruí-lo.

B.T: Quando é a próxima Feira Viva? Há projetos para sair de São Paulo?

K.M: A próxima Feira Viva acontece na primeira semana de dezembro. Também realizamos pequenas ações, sempre para dar mais acesso ao mercado ao produtor rural, como uma pequena feira aos domingos na Av. Paulista, e também uma ação de Natal no Shopping Cidade Jardim. O projeto Feira Viva foi pensado pra ocorrer em qualquer grande centro urbano, sempre com o intuito de trazer esses produtores rurais e informações relevantes sobre a produção agrícola e abastecimento para a população urbana, que perdeu este elo com a agricultura.

Para saber mais sobre a feira, acesse o site ou siga a página deles nas redes sociais.

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